A Caneta Emagrecedora e a Sua Boca: O Que a Odontologia Precisa Saber Sobre os Efeitos dessas Medicações!

As canetas emagrecedoras se tornaram um fenômeno mundial e transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, promovendo perdas de peso que nenhum outro medicamento havia alcançado. Estima-se que a obesidade já acometa 16% dos adultos no mundo — o dobro das últimas décadas e as prescrições desses fármacos crescem exponencialmente, muitas vezes sem a devida supervisão médica.
Mas enquanto milhões de pessoas celebram a balança, a odontologia começa a observar um efeito colateral silencioso: essas medicações têm impactos reais e documentados sobre a saúde bucal. E o cirurgião-dentista precisa estar preparado para reconhecê-los.
A boca seca: o efeito mais frequente
A xerostomia (boca seca) é a complicação oral mais comumente relatada entre usuários. Uma série de casos publicada na revista Medicine (Baltimore) descreveu três pacientes que desenvolveram hipossalivação severa após o início da terapia, com lábios secos e mucosa pegajosa (Mawardi et al., 2023).
O problema vai muito além do desconforto. A saliva é o sistema de proteção natural da boca: ela limpa, neutraliza ácidos e fornece minerais para a remineralização do esmalte. Quando a produção cai, o paciente fica mais vulnerável a:
Cárie dental e cárie radicular (a falta de saliva prolonga a acidez e impede a remineralização);
Candidíase oral e inflamação da mucosa;
Gengivite, pelo acúmulo de placa que a saliva deixou de limpar;
Halitose — o famoso "bafo de Ozempic", descrito na literatura com odor sulfuroso.
Língua Geográfica com sensibilidade elevada e dor.
Alterações no paladar: a "língua de 0z3mp1c"
Cerca de 6% dos usuários relatam disgeusia — uma alteração persistente do paladar, descrita como um gosto doce ou metálico na boca — que costuma aparecer nas duas primeiras semanas de tratamento (Volpe et al., 2023). Essa alteração, curiosamente, contribui para a redução do apetite, mas sinaliza que o sistema sensorial oral está sendo afetado pela medicação.
PS. Desculpe alterar as letra do medicamento, mas mesmo levando informação de qualidade com pesquisas científicas, somos penalizados pelo algorítmo na divulgação.
Erosão dental: quando o ácido do estômago ataca o esmalte
Os efeitos gastrointestinais — náusea, vômito e refluxo gastroesofágico — são os mais prevalentes na classe, especialmente no início do tratamento. Um estudo publicado no Diabetes, Obesity and Metabolism (periódico Qualis A1) documentou a tolerabilidade gastrointestinal em adultos com sobrepeso e obesidade (Wharton et al., 2022).
O refluxo e os episódios de vômito expõem o esmalte ao ácido gástrico de forma repetida, causando biocorrosão dental — perda de estrutura do dente que avança da superfície para a dentina, gerando sensibilidade e aumentando o risco de cárie. O vômito recorrente também altera o pH bucal e desequilibra o microbioma oral, favorecendo inflamações e infecções secundárias.
O risco que ninguém comenta: aspiração durante procedimentos
Um dos pontos mais críticos para nós, dentistas, é o esvaziamento gástrico retardado causado pelos medicamentos. Em procedimentos com sedação ou anestesia geral, o paciente pode reter conteúdo gástrico e apresentar risco de aspiração pulmonar — uma complicação potencialmente grave e até fatal.
O consenso multidisciplinar da SPAQI (Society for Perioperative Assessment and Quality Improvement), publicado no British Journal of Anaesthesia (Qualis A1), estabeleceu diretrizes claras (Oprea et al., 2025): pacientes em uso de ação prolongada há menos de 16 semanas, em fase de titulação, com sintomas gastrointestinais ou gastroparesia são considerados de alto risco e devem ter a medicação pausada antes de procedimentos eletivos sob anestesia geral ou sedação profunda. Existem relatos documentados de aspiração pulmonar de conteúdo gástrico em dois pacientes que usavam medicamento para perda de peso (Anaesth Reports, 2024).
Na prática: antes de qualquer cirurgia oral com sedação, pergunte ao paciente se ele usa canetas emagrecedoras. Essa informação pode salvar vidas.
E o periodonto? Um dado surpreendente
Curiosamente, alguns estudos pré-clínicos sugerem que os medicamentospoderiam exercer efeitos benéficos no periodonto — reduzindo atividade inflamatória e inibindo a atividade de osteoclastos — com indicativos de menor perda óssea peri-implantar no primeiro ano (Almohammad et al., 2025; revisão do NHS Education for Scotland). Ainda são dados iniciais, mas apontam para um campo promissor de pesquisa.
A ressalva importante: a obesidade e o diabetes são as próprias condições que levam ao uso das canetas já aumentam a prevalência de doença periodontal, cárie e perda dentária. Ou seja, esse paciente chega ao consultório com um perfil de risco elevado antes mesmo de considerar a medicação.
O papel do cirurgião-dentista: prevenção e vigilância
Diante desse cenário, a conduta clínica deve ser ativa:
Identificar o uso das canetas emagrecedoras na anamnese — pergunte sempre;
Reduzir o intervalo de recall para pacientes com xerostomia, refluxo ou alto risco de cárie: 3 a 4 meses;
Prescrever fluoreto — enxaguatórios, géis e vernizes para proteger o esmalte;
Orientar a não escovar os dentes imediatamente após vômito — isso espalha o ácido e acelera a erosão; o ideal é enxaguar com água e aguardar 30–60 minutos;
Estimular a salivação: hidratação frequente, gomas sem açúcar e, em casos severos, saliva artificial
Coordenar com o médico prescritor ajustes na dose ou na condução podem reduzir náuseas e vômitos sem comprometer o tratamento;
Redobrar a atenção em cirurgias com sedação, seguindo as diretrizes da SPAQI para pausa da medicação.
Um novo capítulo na odontologia integrativa
As canetas emagrecedoras chegaram para ficar — e a odontologia ganha um novo papel: o de guardiã da saúde bucal em uma era de transformação metabólica. Na Intégra Odontologia, acreditamos que a boca é o espelho do corpo. Reconhecer os efeitos das novas terapias sistêmicas no sorriso faz parte de uma visão integrativa, que trata o paciente como um todo.
Se você usa ou está considerando uma caneta emagrecedora, inclua o dentista na sua jornada. A saúde do seu sorriso acompanha cada escolha que o seu corpo faz — e essa é uma parceria que vale a pena cultivar.
Prof. Dr. Arnaldo Jamariqueli — Cirurgião Dentista, Implantodontista e Periodontista
Estudo | Periódico | Qualis |
Oprea AD, et al. Perioperative management of patients taking GLP-1 RAs — SPAQI consensus (2025) | British Journal of Anaesthesia 135(1):48–78 | A1 ✅ |
Otolaryngologic side effects of GLP-1 receptor agonists (2025) | The Laryngoscope 135:2291–8 | A1 ✅ |
Wharton S, et al. GI tolerability of once-weekly semaglutide 2.4 mg (2022) | Diabetes, Obesity and Metabolism 24:94–105 | A1 ✅ |
Mawardi HH, et al. Semaglutide-associated hyposalivation (2023) | Medicine (Baltimore) 102:e36730 | A2/B1 (verificar área) |
Volpe et al. — disgeusia em usuários de semaglutida (2023) | citado em EXCLI Journal | — |
Almohammad AA, et al. GLP-1 em periodontia (2025) | Cureus 17(10):e95792 | B |
Bernardo ME, et al. Semaglutide and tirzepatide: oral cavity effects (2026) | EXCLI Journal 25:167–169 | B1 |





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